Formação precisa-se!

Tenho escrito invariavelmente artigos que, em teoria, apontam vias para a evolução do Pólo Aquático (PA) nacional. Quando li o artigo do meu companheiro de coluna, Bruno Pita, a quem endereço os meus parabéns, ficou o amargo sabor de perceber a comunidade técnica da nossa modalidade pouco activa e mediocremente actualizada. Não por achar o seu artigo errado (muito pelo contrário), mas por o considerar um oásis, num deserto.

Peço desde já perdão, porque espero e acredito que o que irei escrever não se aplica a todos os técnicos de pólo aquático portugueses e estrangeiros a desenvolverem a sua actividade em Portugal mas, no meu ponto de vista, a ausência de formação é por demais flagrante e erradamente enraizada no nosso país.

Façamos então um pequeno exercício de comparação com a nossa companheira federativa, a Natação Pura Desportiva (NPD) e atentemos nos seguintes aspectos: Formação Académica, Formação Contínua e Produção Científica.

Formação Académica

No que respeita à NPD, nas principais faculdades do país existe a opção de Treino de Alto Rendimento de – Natação: FADEUP, FMH, UTAD, FCDEF-UC, ISMAI, etc. É certo que, em teoria, esta opção engloba todas as disciplinas da Natação. Mas em verdade dedica-se fundamentalmente à NPD. E a razão é muito simples, os docentes destas disciplinas são especializados em NPD. O que nos reporta a outra questão. A nível académico que individualidades temos nós no PA? O professor Pedro Sarmento, docente da FADEUP, que, no entanto, não lecciona PA, nem está, há já algum tempo, ligado à modalidade. A professora Sofia Canossa que está em processo de conclusão do Doutoramento, embora não ligada a nenhuma instituição de ensino superior, no que respeita à leccionação de aulas de PA. Em contraponto em NPD temos nomes ilustres, reconhecidos a nível nacional e internacional: João Paulo Vilas-Boas, Francisco Alves, Ricardo Fernandes, António José Silva, entre outros.

Formação Externa

Nos cursos, periodicamente organizados pelas Associações Regionais de Natação, parece haver uma preocupação em abordar todas as disciplinas da Natação, porém a informação apresentada não ultrapassa o nível básico, revelando-se insuficiente para uma abordagem completa da modalidade. Se pensarmos em termos de acções de formação, colóquios, congressos, workshops e outras formações ou especializações idênticas é evidente a maior oferta em NPD. Se colocar o PA como disciplina académica é mais complexo, aumentar o número de formações externas é perfeitamente exequível e está ao alcance dos responsáveis federativos, particularmente os directamente ligados ao PA. Temos ao “nosso” serviço um seleccionador húngaro, Lajos Lorincz, que é, sem a menor dúvida, alguém muito entendido na modalidade. Recordo-me da formação que houve em Fafe, por alturas de uma etapa do Beach Polo, muito simples, mas de extrema utilidade e, mais importante, com grande adesão por parte dos treinadores portugueses. Porque não criar um programa de formação mensal ou trimestral, no qual o seleccionador exporá os aspectos do mais básico para o mais complexo, relevantes para o desenvolvimento da modalidade? Outra individualidade que, a meu ver, deverá ser aproveitada neste sentido, e que até há bem pouco tempo estava ao serviço da federação, é o professor Pedro Cardoso. O actual treinador do CDUP, tem uma formação invejável, uma vez que acompanhou activamente e in loco, durante uma temporada, uma equipa da primeira divisão italiana. Certamente que o professor Pedro Cardoso estará disponível, se solicitado, para partilhar os seus conhecimentos ou mesmo formar os técnicos portugueses.

Produção Científica

A comparação entre NPD e PA a este nível demonstra uma diferença abismal. É obvio que este último aspecto está intimamente ligado ao primeiro factor que falamos. A maioria da produção de ciência está ligada às instituições de ensino superior. Assim, só estando ligado de alguma forma a estas entidades se poderão realizar estudos válidos e publicáveis. Porém, a ligação a uma faculdade não tem forçosamente de ser de relação tipo aluno ou formando. As faculdades estão abertas ao estabelecimento de protocolos bidireccionais de recolhas de dados, avaliações e produção científica. No entanto, a iniciativa terá de partir dos técnicos e das equipas.

Estes são apenas três aspectos onde se poderá investir na urgente formação da classe técnica do PA nacional. Podemos e devemos seguir o exemplo da NPD, que será a par da Corrida no Atletismo a modalidade mais “científica” em Portugal. O investimento na formação dos nossos treinadores conduzirá, naturalmente a uma melhoria nas equipas e nos atletas. A experiência enquanto jogador e/ou treinador logicamente que é importante, mas é com ciência, com dados mensuráveis, que toda e qualquer modalidade evolui. 

A este respeito, tomava a liberdade de pedir ao professor Ricardo Fernandes, pessoa na qual reconheço sensibilidade, competência e conhecimento, para escrever um artigo no qual exponha as possibilidades de aproximar o PA das instituições de ensino superior e formas para a comunidade técnica de PA se tornar mais científica, seja em termos práticos de treino (metodologia, planeamento, avaliação, etc.), quer em termos teóricos com produção e publicação de artigos técnicos.

Francisco Lima, Ter, 02/03/2010 - 16:55

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