Já referimos em crónica anterior que os técnicos são a estrutura e o elemento fundamental no processo e na obtenção do resultado desportivo. Muito embora caiba a si, e a cada um, a decisão de se dedicarem de forma exclusiva ao processo de treino, existem, no entanto, condicionantes a esta dedicação. Desde logo, as condicionantes de aplicação legislativa, especificamente o não cumprimento por parte das diferentes Instituições: da requisição de técnicos e dirigentes (Portaria 739/91); e do artigo 19º e 24º do DL.125/95 de 31 de Maio, sobre a dispensa de funções e licenças aos trabalhadores do sector público (especificamente as que se referem aos praticantes em regime de alta competição a qualquer título vinculados ao Estado, autarquias locais ou a outras pessoas colectivas de direito público pode ser concedida licença extraordinária pelo período de tempo necessário à sua preparação e à sua participação nas provas constantes do plano estabelecido pela federação respectiva).
Outro dos factores, condicionantes, é que a generalidade dos técnicos depende de uma estrutura de suporte, do livre associativismo local (clubes), tendo que para isso treinar com mais do que um grupo de nadadores (exemplo, juniores e seniores; ou infantis e juvenis) facto que inviabiliza a individualização do processo de treino e a dedicação aos que, por inerência do seu estatuto e competência, possuem melhores condições para o resultado desportivo.
Não é possível a criação de condições especiais de treino, que são aquelas que levam a resultados especiais em competição (estágios em condições inabituais, noutros contextos altitude ou com outras equipas e selecções para aumentar a competitividade), com grupos alargados de nadadores. Estas condições só são possíveis com grupos restritos de nadadores que mereçam o investimento pelo talento e pela dedicação.
Logo, o que se faz aos outros? À não elite do clube?
Isto, porque não existem mecanismos de salvaguarda para os treinadores, podendo até dar-se o caso, como já aconteceu, de os clubes não gostarem muito desta individualização do treino, nos melhores, e de não descurarem a massa de nadadores que são aqueles que dão, na generalidade dos casos o sustento financeiro à instituição.
E quanto aos nadadores? Aqui também a dedicação exclusiva é necessária. Se queremos o resultado, temos de ter nadadores empenhados e com disponibilidade para o processo de treino, para além de motivados.
E a grande questão, que se coloca, é que a motivação nos dias de hoje já não é comprável com equipamentos de treino e outros subterfúgios. É o dinheiro, sim esse vil metal que faz com que as pessoas se dediquem, aqui ou na China...
Podemos analisar o que se passa em diferentes realidades, locais, regionais e nacionais bem como até noutras modalidades. A grande questão é que sem nadadores motivados não teremos nunca resultados desportivos de excelência!
Na natação há clubes (sim clubes) na nossa vizinha Espanha que apostam numa política de premiar o esforço e o resultado com prémios pecuniários (www.cngalaico.com). Se os nadadores deste clube da Galiza tiverem na época uma Final A nos Campeonatos de Espanha recebem 1000 euros, e por Final B 500 euros. Se forem aos Campeonatos Europeus de Juniores recebem 1000 euros e de absolutos 2000; aos Campeonatos do Mundo 4.000 e 15.000 aos Jogos Olímpicos. Dá 40 euros por cada ponto no C Esp. E isto é 1 Clube aqui à beira e nem está na 1ª Divisão.
No triatlo em Portugal, modalidade que deu um dos maiores saltos qualitativos nos últimos anos a nível dos resultados desportivos Internacionais, a própria federação estimula estes prémios.
O “salto” desportivo de países como o Brasil (e não é só o Cesar Cielo), em França e em Itália, explica-se, entre outros factores, pelo apoio inequívoco, via Federação que os nadadores recebem dos Clubes, e Empresas públicas, e Ministérios (Defesa Militar, Brasil; Gendarmes em França e Carabinieris em Itália) o que lhes faculta uma sustentabilidade para que se possam dedicar ao treino com paragens de 6 meses a 1 ano pelos EUA, etc.
Há que repensar a estrutura de apoio ao resultado desportivo, pelo menos em três eixos (primários):
• Clubes: Elitização do talento desportivo com medidas de compensação necessárias: i) condições de treino e de organização dos estilos de vida; ii) prémios por resultados (< juniores); iii) subsídio regular (> juniores);
• Associações: Parcerias locais de promoção e enquadramento do nadador;
• Federação: i) desonerar os clubes da participação desportiva dos seus nadadores mais qualificados; ii) subsidiar planos especiais de preparação; iii) subsidiar deslocação para outros sistemas de treino.