O adeus turco à inovação tecnológica

Abdi Ipekçi Arena, em Istambul, recebeu durante quatro dias, de 10 a 13 de Dezembro, os XIII Europeus de Piscina Curta. Foi a última grande prova internacional de natação pura no decorrer do presente ano (2009), não só pela importância desportiva que este evento acarreta, mas também porque marca o fim da era dos famosos e tão polémicos fatos de poliuretano.

A delegação portuguesa, dirigida por Rui Magalhães, foi constituída por oito nadadores: Adriano Niz, Alexandre Agostinho, César Faria, Diana Gomes, Diogo Carvalho, Fábio Pereira e os estreantes Luís Vaz e Luís Pinto, deixando de parte outros nomes como Simão Morgado, Tiago Venâncio, Carlos Almeida, Pedro Oliveira, etc. O objectivo principal era a obtenção de novos recordes nacionais. Não obstante, a participação portuguesa alcançou uma série de bons resultados (os melhores da ultima década) com 12 recordes nacionais: Adriano Niz (200 costas), Alexandre Agostinho (50 livres e 100 livres por duas vezes), Diana Gomes (50 e 100 bruços), Diogo Carvalho (50 mariposa, 200 estilos por duas vezes, 400 estilos e 200 mariposa), Fábio Pereira (400 livres). Marcaram ainda presença em quatro finais Alexandre Agostinho (100 livres) e Diogo Carvalho (200 estilos, 400 estilos e 200 mariposa) e duas meias-finais (Alexandre Agostinho, 50 e 100 livres). Este número de recordes nacionais e de participações em finais por parte dos nadadores Diogo Carvalho e Alexandre Agostinho demonstram mais uma vez o sucesso do trabalho que ambos levam a cabo, no caso do primeiro consolidando a sua imagem a nível internacional e nacional e no do segundo a entrada nos patamares mais altos da natação do velho continente.

Foram registados nestes campeonatos 10 novos máximos mundiais, oito máximos europeus e quatro melhores marcas mundiais, ou seja, mais um conjunto de resultados que põe em destaque a eficiência das novas tecnologias.

Acaba o ano de 2009 e assim se encerra um dos capítulos mais polémicos da natação mundial, senão o mais polémico. 2010 trará, com certeza, um rol de dúvidas e discussões que têm vindo a ser habituais nos últimos tempos. Desde Fevereiro de 2008 que assistimos a um «dilúvio» de recordes mundiais (235) e com outros tantos máximos nacionais – só na semana passada foram 47 nos Nacionais em Leiria! –, ou seja, esta foi a última grande oportunidade de mais um recente mediatismo mundial da natação. Outras duas circunstâncias marcaram este Europeu: a mudança da periodicidade anual para bianual e a estreia do sistema de 20 semi-finalistas e 10 finalistas com recurso à utilização das pistas 0 e 9, ingredientes de sucesso para um europeu mediático.

A minha análise é extremamente negativa, face a estas alterações que vão entrar em vigor em 2010. Trata-se de desaproveitar as inovações e a adesão de novos nichos de mercado à natação, determinantes na renovação necessária da modalidade. Este alheamento, agora, a novos produtos que provocam alterações significativas nas especificações técnicas, componentes, materiais, e outras características funcionais não se entende.

Ainda há seis meses a Federação Internacional de Natação (FINA) depois de autorizar o uso de fatos de banho de poliuretano (entre os quais o «Jaked 01», modelo utilizado pelo francês Frédérick Bousquet quando bateu o recorde mundial dos 50m livres com 20’’94, que durante vários meses gerou polémica, ou de 136 outros modelos produzidos unicamente em poliuretano), pediu aos fabricantes para os reverem, devido ao presumível efeito de formação de bolhas de ar destes fatos, que acabava por favorecer a flutuação e aumentar a prestação. Não o sabiam já?

Uma coisa é certa. A inovação é fundamental, pois através dela as organizações tornam-se capazes de gerar riqueza contínua e, assim, manterem-se ou tornarem-se competitivas nos seus mercados. Não se aceite o argumento de que esta foi uma inovação radical ou de ruptura. Esta foi uma inovação incremental, por processos de melhoria contínua caracterizada por uma busca e aperfeiçoamento gradual dos equipamentos existentes, desde há muito usados (fastskin; power skin, etc.).

Impedir a inovação tecnológica nos equipamentos é renegar a própria essência da competição. É renegar a evolução, principalmente quando decorre de uma acção perfeitamente planeada, expectável desde há muitos anos, e de procuras conscientes e intencionais. A FINA, em consciência, terá agora também de regular outras inovações se quiser ser coerente com esta decisão. Todas as inovações nas metodologias de treino, ao nível da concepção, operacionalização, controlo e avaliação do processo terão e deverão de ser reguladas por este órgão para que as nações potencialmente mais predispostas a gastar uma maior percentagem do seu PIB na criação de condições para o resultado desportivo não sejam beneficiadas.

Por fim um agradecimento especial ao Dr. João Diogo Freitas na ajuda da recompilação dos dados dos Europeus de Natação.

 

António José Silva, Qua, 16/12/2009 - 12:39

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